A vida de Antônio

a vida de antonioEu me chamo Antonio Carlos, tenho 47 anos. Perdi meu companheiro de vida aos 38 anos de idade. Essa é a história verídica da minha vida. Perto de completar meus 18 anos, em março de 1986, vindo para Brasília, conheci aquele que foi meu parceiro por 21 anos. Ele chamava-se Francisco Bernardino Neto, mas intimamente o chamava de Bernardino, na maioria das vezes, nós nos tratávamos mesmo de “Amor”.
Conheci Bernardino numa fila de banco, na área central do Plano Piloto, em Brasília, mas nosso relacionamento só se consumou após outros encontros numa antiga boate gay chamada Aquarius, no Conic (famoso prédio no centro da cidade). Bernardino morava em Rio Branco (AC), mas vinha à Brasília a negócios. Convivíamos em um apartamento comprado por ele na Asa Norte. Assim, depois de muitos encontros, idas e vindas, me convidou para morar com ele, mas só criei coragem de acompanhá-lo no ano de 1989.
Moramos juntos em Rio Branco até sua aposentadoria, em 1998, quando retornamos para Brasília e aprofundamos ainda mais nossa cumplicidade amorosa. Sempre fui leal, mas tínhamos nossas brigas (como todo casal), havia um pouco de ciúmes de ambas as partes. Decidido a estudar, fiz o vestibular em Rio Branco antes de retornarmos para Brasília. Passei em dois cursos, mas Bernardino não permitiu que eu cursasse na Universidade Federal do Acre (UFAC), pelo fato de ser funcionário da instituição.
Com essa atitude, percebi, de fato, que ele tinha ciúmes. O tempo passou e, em Brasília, moramos juntos num apartamento de um quarto, de classe média. Comemoramos juntos a quitação desse apartamento. Saímos para jantar em um restaurante chiquérrimo, porém, Bernardino era muito simples. No dia a dia fazíamos compras juntos, eu levava as roupas para serem lavadas na lavanderia e ele buscava, eram raras as festas de final de ano que não passávamos juntos, somente quando viajava para minha terra natal, o Piauí, é que nos separávamos um pouco, pois, nesses casos, Bernardino ia para Fortaleza (CE), sua cidade de origem.

Nos finais de semana visitávamos os amigos aqui no Distrito Federal e, em outras ocasiões, visitávamos minhas irmãs em Santo Antônio do Descoberto (GO). Bernardino era muito conservador, discreto, honesto, uma fidelidade sem exceção. Em 2006, resolvemos adotar uma criança, após eu ter relatado os problemas dos pais do garoto, sendo que os parentes eram vizinhos e agregados das terras de meu pai na localidade de São Raimundo (município de Campo Largo do Piauí). Trouxe o bebê com seis meses de vida para Brasília com autorização do Juizado da Infância dada pelos pais, portando ainda o cartão de vacinação, certidão de nascimento e a autorização de adoção (de forma administrativa da mãe e do pai). Antes mesmo do bebê nascer, Bernardino já me orientava para levar a mãe da criança para consultar, fazer exames (como ultrassom).
A mãe o amamentou até seis meses e depois me entregou a criança de vez. Demos-lhe o nome de Francisco. Assim, retornei para Brasília com o bebê e Bernardino nos aguardava no aeroporto. Quando cheguei, fiquei surpreso com tamanha dedicação. No apartamento já tinham roupinhas, panelinhas de fazer mingau, fraldas descartáveis e todos os tipos de alimentos para bebês. Após quatro meses com Francisco morando conosco em Brasília, Bernardino faleceu. Antes disso, estávamos realizando a festa de aniversário do primeiro ano de vida da criança; já tínhamos contratado palhaços e decoração para a festa.
No fatídico dia, ou seja, uma semana antes de Francisco ganhar seu primeiro aniversário, no dia 30 de julho de 2007, numa segunda-feira, eu estava em um supermercado em Santo Antônio do Descoberto fazendo as últimas compras para a festa quando recebi uma ligação de um médico de um dos hospital de Brasília me avisando do estado de saúde de Bernardino.
Voltei imediatamente para Brasília. Chegando lá, um dos médicos me relatou que Bernardino havia falecido. Meu mundo girou, fiquei sem ação, impotente, sem estrutura alguma. Nesse mesmo dia, levei o corpo para Fortaleza, após vários contatos com a família dele. Depois do sepultamento, passei três dias em Fortaleza com seus familiares.
Naquela ocasião, argumentaram que sabia que Bernardino era gay, que convivia com um rapaz vinte poucos anos mais jovem, mas não sabiam quem eu era. Pediram-me para contar nosso convívio nesses anos todos, pois uma de suas irmãs tinha uma conta telefônica com vários DDDs do Estado do Piauí. Eles me disseram que quando
Bernardino ia para Fortaleza, sempre ligava de lá e perguntaram se era para mim.
Tínhamos uma vida amorosa, mas sem devaneios. Enfim, uma vida como a de um casal heterossexual, de modos comuns, com muita discrição. Ele não queria que eu estudasse fora, sempre fomos caseiros, às vezes fazíamos viagens juntos para o Rio de Janeiro, Manaus.
Após o falecimento de Bernardino, tudo foi muito angustiante. Passei dias sem comer nada, somente bebia água. Depois do velório, me surpreendi com tamanha naturalidade que os familiares conduziam sua morte. No dia seguinte, após seu sepultamento, fizeram uma reunião comigo na sala de jantar de Dona Mundica (a matriarca da família e mãe de Bernardino), juntamente com todos presentes.

Nesta reunião, ficou decidido que eu iria receber uma “pensão” no valor de R$ 2 mil e que os bens que Bernardino havia deixado em Brasília seriam todos meus (como o celular, automóvel e apartamento). Para minha surpresa, tudo só ficou no verbo. Retornei de Fortaleza com um irmão e um sobrinho de Bernardino. Eles passaram um dia no apartamento comigo, pegaram todos os documentos que queriam, inclusive os pessoais, e retornaram para Fortaleza. Fiquei no apartamento sozinho, recebia constantemente telefonemas de alguns familiares. Pouco tempo depois, fizeram uma proposta: me dariam R$ 40 mil para eu sair do apartamento.
Entreguei as chaves e, a partir daí, meu barco afundou. Passei fome, recorria aos amigos para pedir dinheiro emprestado. Alguns atendiam minha solicitação, outros ofereceram passagem para que eu retornasse para o Piauí. Por fim, aceitei. Depois, resolvi voltar para Brasília, afinal, tinha uma criança para cuidar (que eu tinha deixado na casa de minha irmã). Fiquei indo e vindo do Distrito Federal para Piauí por causa de Francisco e, aconselhado por amigos, resolvi buscar meus direitos e entrar na Justiça.
Desde o falecimento de Bernardino há mais de 9 anos, tenho dado mais valor a todas as coisas, inclusive a água que mata minha sede, pois meu “porto seguro” se foi.

Passei muitas noites em claro, sem dormir, pensando no dia de amanhã, não comia, somente bebia. Ouvia dizer que isso podia ser depressão, mas não ligava para essas coisas. Nunca mais me envolvi com ninguém, fiquei impotente em todos os sentidos, não tinha agilidade como antes para resolver pequenos detalhes do cotidiano, afinal, passei praticamente 21 anos da minha vida me dedicando a um relacionamento que achava que era um romance, que nunca se acabaria, mas o tempo passou e comecei a agir.

Como nunca regulamentamos nossa união, dei prosseguimento nas ações na Justiça. Hoje Francisco está matriculado em uma escola, cresce bem, com saúde. Quanto aos processos, já se passaram mais de seis anos e há poucos resultados. Vivo à espera de um resultado positivo, desejando que ocorra o esperado, que tenha aquilo que é meu por direito. Enfim, só eu sei os momentos de sofrimento, sem a presença de meu companheiro. Meu mundo desabou e até os dias de hoje passo por isso.

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